- qual é o teu papel?
* meu?
- não, o do outro, que está do teu lado esquerdo.
+ ah, sim, a pergunta é pra mim. muito bem, até hoje não compreendi com clareza a predefinição a mim atribuída. entretanto, tento, daqui e dali, desenvolver qualquer coisa que tenha qualquer valor, quaisquer sentidos, e que provoque, de alguma forma, o pensamento crítico do outro.
- explêndido! o próximo.
= seria eu?
- naturalmente...
= então, aqui vamos nós. eu sei bem o porquê resido em meio a vós. meu papel é encontrar o equilíbrio em meio às coisas frágeis que pendem pra lá e pra cá em meio ao caos.
- magnífico! agora sim, podes falar.
* eu?
- certamente...
* bem, er... diante de tanta eloquência, sinto-me pouco encorajado a discursar, até porque não é de minha ciência coisas tão magnas como as anteriormente citadas por meus companheiros de cela. todavia, ignoro-as propositadamente! ignoro muitas coisas: impaciências, má resoluções, dores, fadigas, ateísmos, desânimos, limitações. às vezes, até mesmo alegrias, tesão, humor, expectativas são deixados à mercê de minhas observações a respeito de coisas tão insignificantes, tão singelas, que são capazes de passarem despercebidas pelos demais, tão cultos, tão sábios, tão entendidos, tão poderosos, tão sem-tempo...
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